Dodge Journey: familiar, mas descolado 26/10/2009

O casamento chegou, a família cresceu e você trocou de carro. Mas algum tempo depois o primeiro filho ganhou um irmãozinho (a), depois outro e outro. Pronto. Aquele sedã ficou pequeno e só um carro grande de verdade resolverá.

Nessa hora entram em cena os crossovers. Derivados dos sedãs, esses modelos buscam oferecer a funcionalidade das minivans com um visual menos conservador. Lançado na Europa em maio de 2008 e no Brasil em setembro do mesmo ano, o Journey encara bem esse espírito: leva sete ocupantes, tem lugar até para gelar refrigerantes sob o assoalho traseiro e um generoso porta-malas. Tudo por R$ 98 900.

Confira a seguir as opiniões de cinco jornalistas sobre o modelo norte-americano.

Márcio Murta, repórter do portal Carro Online

Com 4,88 m de comprimento, 2,12 m de largura e 1,75 m de altura, não há como negar que o Dodge Journey é uma grande figura um tanto incomum em nosso trânsito. Veículos desse porte, no entanto, sofrem com a falta de praticidade no uso urbano. No caso do Dodge, vivi esse problema piorado pela falta do sensor de estacionamento. O modelo é 31 cm mais longo que um Captiva e exige cuidado na hora de ser manobrado.

O painel de instrumentos é a única parte que destoa do bonito e bem acabado interior do norte-americano. Conforto e espaço só são limitados nos dois bancos para crianças, que podem ser levantados ou escondidos no porta-malas. No mais, a suspensão do Journey é macia, condizente com sua proposta, e seu motor trabalha em silêncio. É um carro criado para transportar uma grande família com conforto, mas vale dizer: é um automóvel que não dá prazer de dirigir.

Um pouco mais de força no propulsor 2.7 V6 em baixo giro, no entanto, seria uma boa pedida, uma vez que os 26,1 kgfm de torque só se manifestam nas 4 000 rpm. Isso torna o Journey lento em acelerações e exige maior pressão no pedal direito para fazê-lo andar. Para um automóvel que pesa 1 940 kg e pode transportar sete pessoas com algumas malas, o propulsor que gera 185 cv deixa a desejar, mesmo àqueles que não buscam condução esportiva. Seu câmbio não aproveita bem as 6 marchas por conta da demora nas respostas, especialmente em retomadas. Além disso, as trocas sequenciais para as laterais não são nada instintivas.

Munido de ESP (controle de estabilidade), ABS (sistema antitravamento das rodas), BAS (distribuição eletrônica da força de frenagem), ERM (sistema anticapotagem) e 10 airbags (!!!), o Journey é uma opção mais interessante para a família que o Captiva V6 FWD, por exemplo, que é R$ 1 239 mais caro e transporta duas pessoas a menos.

Thiago Vinholes, repórter do portal Carro Online

Carros da Dodge sempre foram modelos esportivos ou veículos de baixo custo. Os antigos Dart e Polara que o digam. Terceira marca do grupo Chrysler, a fabricante simbolizada pelo carneiro montanhês com cara de mau perdeu um pouco de sua personalidade clássica ao se envolver no mercado de minivans, hatchs e crossovers, como o Journey. Mas, coitado, ele é um carro tão bacana. Seria mais adequado se fosse vendido como um Chrysler ou um Jeep, já que são tantas as possibilidades no universo do conglomerado parceiro da Fiat.

Seu motor 2.7 V6 24 válvulas segue a regra dos “seis canecos”, tão amados pelos fiéis fãs da Dodge. No entanto, os 185 cavalos de potência e 26,1 kgfm de torque disponíveis apenas em 4 000 rpm dão a impressão de estar conduzindo um autêntico Chrysler, que não emociona (a não ser nas versões esportivas SRT), mas não é um martírio. Já a desenvoltura do Journey na transposição de grandes valetas, buracos e piso ruim é digna de um Jeep.

Mesmo com essa confusão na maternidade, o Journey tem atributos de sobra para justificar seu nome, que significa “jornada” em inglês. A posição do motorista é privilegiada. O assento é extremamente confortável, os comandos são leves e o campo de visão frontal, beneficiado pela posição elevada, é muito bom. A segunda fileira de bancos mantém o mesmo conforto e ainda permite diferentes regulagens. Já na terceira seção, o aperto é inevitável, mas sempre há alguém disposto a viajar no espaço oriundo do porta-malas.

Uma longa viagem a bordo do Journey também é agraciada pelos inúmeros porta-objetos presentes na cabine. Objetos de valor podem ir literalmente escondidos debaixo do banco do passageiro, cujo assento é também a tampa de um compartimento. Esqueça o isopor com gelo para armazenar líquidos em temperatura ideal. No modelo há porta-objetos com interior emborrachado no assoalho que dispensam qualquer geladeira compacta. É bem legal, assim como o preço pedido pelo veículo: R$ 98 900, cifra rara nesse segmento no Brasil. Mas o logotipo não combina com o carro.

Rafael Munhoz, editor da revista RACING

Nunca fui muito fã de carrões grandes. Tudo bem, questão pessoal. Mas admito que o Dodge Journey me surpreendeu positivamente em muitos aspectos. Existem alguns modelos que nem têm as proporções tão grandes e você se sente em uma “barca” quando dirige. Neste ocorre exatamente o oposto: parece que estou em um veículo bem menor. E não somente pelo tamanho, mas também pelo comportamento.

O que eu esperava de um crossover como o Journey era uma suspensão irritantemente macia, que fizesse todos que estão dentro do veículo chacoalharem em cada ondulação. Para minha surpresa, notei uma suspensão consideravelmente rígida, que agiu muito bem nas curvas e não deu a impressão de que eu estava guiando um trambolho. Ponto positivo para o modelo da Dodge.

Mas nem tudo são flores. O câmbio e o motor não se arranjaram bem. As reações são lentas. Ok, um modelo como esse não é lá um exemplo de esportividade, mas a demora para uma reaceleração, para as trocas e decisões do câmbio realmente incomodam até o mais pacato motorista. Achei isso estranho, já que o crossover é equipado com um motor 2.7 V6 de bons 185 cv. Talvez as respostas do câmbio (automático de 6 velocidades) sejam as verdadeiras culpadas pela lentidão.

Também me incomodou o fato de o carro não contar com algumas tecnologias como o Bluetooth (disponível apenas como opcional) e a entrada USB. O máximo que temos é uma entradinha auxiliar, pouco abaixo do tradicional CD (que suporta 6 discos e tem compatibilidade de leitura com arquivos MP3).

Em geral, o Journey me surpreendeu positivamente, mas a impressão teria sido um pouco melhor se a marca norte-americana tivesse tratado com mais atenção alguns detalhes que considero importantes, como os citados no parágrafo anterior.

Angelo Treviso, editor de testes da revista CARRO

Quem procura um veículo que concilie conforto, modularidade e espaço de sobra para toda família, principalmente para a criançada e suas bagunças, pode facilmente encontrar tais qualidades no Dodge Journey. Uma alternativa aos monovolumes, o crossover americano é um daqueles carros ideais para viajar nos fins de semana. Graças à configuração de sete lugares, nele os passageiros vão bem acomodados e seguros pelos cintos de segurança de três pontos para todos os lugares. A modularidade do carrão é outro ponto positivo e pode ser vista em todos os cantos: nas laterais das portas, no compartimento refrigerado pelo ar-condicionado no painel e nos porta-objetos localizados na parte traseira do piso, além, é claro, do imenso porta-malas.

Outro ponto de destaque do Journey é o padrão de conforto que ele oferece. É um carro bem-acabado e o nível de equipamentos de série é capaz de deixar a maioria de boca aberta. Só para citar alguns deles: airbags frontais e laterais, bancos de couro (sendo o do motorista com controle elétrico), ar-condicionado digital, um excelente sistema de som, ABS, ESP, piloto automático, entre outros. Outra virtude do modelo é o conjunto motor/transmissão. O motor 2.7 V6 de 24 válvulas e 185 cv de potência trabalha suave e silenciosamente com o câmbio automático de 6 marchas, empurrando bem o Journey. Quanto ao consumo, rodando na cidade ele faz 5,5 km/l em nossas medições – na estrada, o crossover marcou 7,6 km/l. Embora a marca Dodge esteja um pouco esquecida aqui no Brasil, no final das contas, o Journey, vale a pena pelo espaço que toda a família almeja ter em um carro.

Gerson Campos, editor-chefe do portal Carro Online

O Journey não condiz com a aparência que tem. Não que você vá sentar no crossover e sair acelerando um verdadeiro esportivo. Longe disso. Mas ele não extermina todo o prazer ao volante de quem precisa (ou simplesmente quer) comprar um carro espaçoso. Um jornalista de uma publicação internacional deu uma definição perfeita para o Dodge. Era algo assim: “O Journey é o carro perfeito de um pai de família que precisa de uma minivan, mas não quer enterrar sua dignidade”.

É irônico, mas faz sentido. Quantas pessoas não se casam, têm filhos e se veem com o carro apertado, mas não querem ter o impacto de sair de um hatch ou um sedã para as caretas minivans? O Journey cumpre o papel de ser esse intermediário.

Lançado para ser um carro mais global que norte-americano, o Dodge tem um acerto de suspensão mais justo e não é mole como seu visual e origem sugerem – a ideia é agradar também aos europeus. Por isso, as unidades emprestadas aos jornalistas no lançamento mundial do modelo, na Noruega, ofereciam rodas de 19”, que deixavam o visual voltado a um público mais jovem. Até uma versão com prancha de surf no teto foi exposta. Fiquei decepcionado com o visual do Journey quando vi por aqui os modelos com rodas de 17”, mas entendi perfeitamente a opção da marca, que não queria expor seus clientes a problemas em nossas ruas “lunares”.

Quem nota a quantidade de porta-objetos no crossover já vê que não se trata de um carro para pessoas desorganizadas, que podem ficar semanas atrás da carteira e do celular – eles podem parar embaixo do banco do passageiro, no compartimento para bebidas sob o assoalho traseiro ou no enorme porta-malas de 758 litros (quem quiser viajar em sete pessoas terá de sacar os bancos que ficam sob o assoalho do bagageiro e ter o espaço dos objetos reduzido para 100 litros).

Como a maioria dos colegas, achei o motor V6 fraco para empurrar os 1 940 kg do Journey. O desempenho mais parece o de um 4 cilindros. Mas, no conjunto, o Dodge é um carro interessante. E familiar, embora seu visual tente dizer o contrário.

Fonte: Terra

 

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